Interações e desdobramentos do texto sobre a vacina
É curioso como as coisas ganham contornos desproporcionais nas redes sociais. Aparente hoje foi o meu dia de ser cancelado.
O @nozima postou uma interação com o meu texto sobre a vacina e, como sua interação comigo foi respeitosa, vou aproveitar para explicar melhor o ponto.
Por vezes aquilo que vem parar nas redes carece de contexto, e quando isso é somado às perspectivas diversas de quem observa, o problema pode se tornar pior. Então deixem-me falar um pouco do contexto.
Eu sou pastor. Sirvo em uma igreja local – estou em meus primeiros dias nesse novo ambiente -, e a minha preocupação primeira é com esse rebanho que foi confiado a mim.
Escrevi um texto para orientar a igreja local em uma questão prática. Como vamos lidar com os relacionamentos na igreja diante do problema da vacina? Na igreja podemos ter pessoas favoráveis e contrárias. Como a comunidade local vai caminhar? Para mim, a Escritura responde: primeiramente, quando o nosso coração está em paz, entendendo a soberania de Deus, somos livrados de colocar pressão uns sobre os outros, achando que a vacina salvará ou condenará o mundo. Em segundo lugar, a igreja continuará tendo pessoas que pensam diferentemente sobre questões secundárias diante do evangelho: não adiantará e nem é adequado forçar pessoas a ter uma mesma perspectiva. É possível conversar sobre essas diferenças, mas com equilíbrio e paz. Finalmente, a igreja pode e deve orar por cientistas e políticos no trabalho que estão desempenhando. Isso será bom para todos. Esse foi o ponto do texto.
Eu escrevo como pastor. Existem almas atormentadas de um lado e de outro. Alguns, ansiosos, acreditam que a vacina será o fim do mundo. Outros, igualmente ansiosos, acreditam que a vacina será a salvação do mundo. Eu quero levantar os olhos de ambos para a eternidade. Isso não significa negar o presente, mas ter o coração alinhado para lidar com as demandas do dia. Sem isso, apenas faremos barulho.
Eu não publiquei o texto nas redes sociais. O meu foco era a comunidade local, por isso publiquei apenas em nosso informativo dominical. Alguns membros postaram nas redes, e a coisa começou a se espalhar. O @angelobazzo e a @s_bazzo compartilharam, e a coisa ganhou mais visibilidade ainda. Por causa disso, o Voltemos ao Evangelho se interessou em publicar, e eu permiti.
Para o tribunal das redes, o texto é aquela mistura de negacionismo com bolsolavismo anticientífico e maquiavelismo individualista sádico. Para alguns, o texto pode dar margem a interpretações erradas – qual texto não pode? -, enquanto para outros, trata-se de um texto deplorável e vergonhoso, típico da postura que os reformados, ou pelo menos o pessoal da @coalizaopeloev, tem adotado.
Muito poderia ser dito. Seria possível comentar essa mentalidade de torcida, que tem atrapalhado bastante a forma de perceber os irmãos do TGC Brasil. Seria possível falar um pouco sobre o ressentimento que a geração de “webcrentes” tem para com os reformados, de modo geral. Seria possível falar sobre a falácia do rótulo odioso – termos como “negacionista” e “defensor de teorias da conspiração” deixaram de ser descrições da realidade, e se tornaram rótulos para causar uma impressão psicológica, e assim já caracterizar alguém como não apenas errado, como perverso. Mas nada disso merece atenção agora, e precisamos fazer uma boa gestão das nossas energias e tempo, investindo naquilo que realmente vale a pena.
O que vale? As questões levantadas pelo @nozima são interessantes. A pergunta levantada é: “quando a minha decisão traz riscos reais à comunidade, ela é mesmo um assunto menor, de liberdade cristã? Dentro de uma ótica de Ética e não de Dogmática, é secundário?”. Em tweet seguinte, segue o questionamento: “Receio que estejamos relegando assuntos importantes de Ética e de amor ao próximo como ‘periféricos’, ‘secundários’ ou de ‘liberdade de consciência’, simplesmente porque apenas assuntos doutrinários sejam considerados importantes. Mas o amor ao próximo é o cumprimento da Lei”.
O questionamento é relevante e precisa ser considerado. Primeiramente, devo apontar que eu não trato dessa divisão tão rigidamente como possivelmente o Pr Helder entendeu. Pelo contrário, no próprio texto estou tratando de aspectos éticos em bases doutrinárias.
Em segundo lugar, um dos problemas dessa perspectiva é que ela só aceita uma postura como a do “amor ao próximo”. Somente é considerado amor se alguém for vacinado. Não é considerado amor respeitar o irmão que tem dificuldade com isso. Somente são dignos de amor os irmãos que querem vacina? Os que não querem ficam fora desse campo?
A premissa é problemática, e também pressupõe que a solução seja uma espécie de constrangimento público daqueles que rejeitam a vacina. O trato pastoral, no entanto, não é exercido na base da força. Existe um lugar muito à frente para a disciplina punitiva na igreja, mas, ao que parece, o modelo bíblico não sugere que devamos constranger consciências em questões que não têm o mesmo peso do evangelho.
A propósito, esse é um risco da perspectiva: transformar o “apoiar a vacina” em uma Lei suprema, que define quem é cristão coerente e quem não é. Somente os que apoiarem são fiéis e estão aprovados – os negacionistas merecem alguma condenação. Essa é uma forma de legalismo – um moralismo maquiado com as palavras “amor ao próximo”. De forma simples, podemos dizer: sim, o tema da vacina é secundário diante do Evangelho. Alguém que não crê na vacina poderá ser salvo pela fé em Jesus, enquanto alguém que não crê em Jesus será condenado, ainda que se vacine.
Eu creio sinceramente que cada irmão deve pensar não apenas em si, mas na comunidade enquanto considera o tema da vacina. Mas eu não devo atuar no constrangimento de irmãos que se sentem inseguros, a fim de que façam isso. Existem outras tradições nas quais o líder exerce um tipo de controle maior sobre a vida dos fiéis, mas não entendo que esse seja um modelo bíblico de liderança, nem de respeito à imagem de Deus no homem.
Eu não entro no mérito da vacina em meu texto. Não tenho competência para isso, e acredito que as pessoas estão muito bem e ficam melhores sem saber o que penso sobre o tema. Mas eu entendo que posso pastorear a igreja ajudando os meus irmãos da Primeira Igreja Presbiteriana de Barretos a experimentar paz confiando na soberania de Deus. Creio que posso ajudar meus irmãos a experimentar paz tratando bem uns aos outros, sem impor rótulos como “você é um negacionista” ou “você não ama o próximo”, mas sentando para conversar e aprendendo a lidar com as nossas diferenças naquilo que não é central; e creio que devemos continuar orando e apoiando políticos, cientistas e médicos, que estão lutando bravamente para salvar vidas.
Repito o meu ponto fundamental no texto: é possível ter paz. Com ou sem vacina.