Graça e Engano

Você não precisa se esforçar tanto para segurar a presença de Deus. Ele ama estar com você.

Às vezes é bom ser “enganado”.

Deixe-me explicar:

Normalmente, eu sou o responsável pelo ritual de sono das crianças aqui em casa. Após o dia de trabalho, gosto de passar um tempinho no início da noite com eles, brincando, conversando no jantar, dando banho, e colocando-os para dormir.

O ritual do sono é simples. Começa com o banho. Embora agitados, o banho serve para ajudá-los a entender que está chegando a hora de dormir. A água limpa o corpo e relaxa a alma. Após o banho, vem o leite, cuidadosamente preparado pela mamãe. Alguma nutrição leve para passarem a noite tranquilos. Terminado o leite, escovamos os dentes. Matias já tem mais desenvoltura e Lúcia está aprendendo. Seguimos para colocar o pijama — Matias se veste sozinho, enquanto eu coloco a fralda, visto e (argh) escovo o cabelo de Lúcia. Com cada um no seu quarto, repito os mesmos passos: leio alguma coisa, oramos e então eles vão dormir.

Curiosamente, é na hora da oração que as artimanhas do engano se manifestam.

Quando vou orar com Matias, faço uma oração curta, por vezes repetindo o Pai Nosso para ensiná-lo a orar. Mas o garoto tem outros planos.

Após a minha oração, e percebendo que vou me retirar do quarto, ele pede para orar. Eu deixo.

Ele começa a agradecer a Deus. Agradece pelas coisas básicas do dia: brincadeiras, estudos, brinquedos… e então inicia uma lista interminável de agradecimentos, que podem envolver os dedos de sua mão, as orelhas de um personagem de desenho animado, os astros no céu ou qualquer outra coisa que surja em sua mente no momento.

Talvez você já tenha entendido a estratégia. O garoto não quer que eu saia. Seja por amar a minha presença, seja por não querer dormir, ele começa a “enrolar” na oração, iniciando uma vigília que parece não ter hora para acabar.

Ele pensa que está me enganando — que o seu plano de ganhar tempo está sendo um sucesso —, e assim segue até que a sua criatividade encontre alguma limitação. Finalmente, encerra a oração.

É verdade que, em alguns dias, eu estou com pressa e tenho pouca paciência para a enrolação. Por vezes dou uma apressadinha, sugerindo um “…em nome de Jesus…?” e esperando que ele encerre com o amém. Mas, na maioria das vezes, eu entro no jogo.

Entro no jogo porque, embora ele pense estar me enganando, é ele quem não percebe os efeitos duplos do que está acontecendo. Primeiro, ele está exercitando a oração e a gratidão. É bom que ele aprenda a agradecer por tudo mesmo, das orelhas do Chase (Patrulha canina) ao Willy Wonka (fábrica de chocolates). Além disso, ele acha que precisa me enrolar para guardar a minha presença, mas não sabe que eu amo estar ali com ele, apreciando o seu esforço gigantesco para segurar alguns minutos a mais.

Por vezes nós somos como garotinhos inocentes tentando garantir algo de Deus com base em alguma estratégia pessoal, sem perceber que, aquele que entregou Seu Filho para a nossa redenção ama estar conosco e nos conceder mais de Sua graça.